Ipsum Esse Subsistens

21.04.2018

Wittgenstein dizia que a filosofia, no fundo, deixava tudo como estava. Em relação a Deus acontece o mesmo. Deus não faz qualquer diferença em relação ao mundo—e se pensarmos que sim, que é um ser que interfere nele, que salva uns e deixa outros morrer, e por aí fora, estamos no terreno de uma fé que nos torna joguetes nas mãos de tal divindade. Mas, adoptando outra perspectiva, pode fazer toda a diferença. Há muitas imagens de Deus e é comum confundir-se a imagem com aquilo para o qual a imagem aponta, sem mistério nem incerteza. Nesse sentido, a imagem que é muitas vezes apresentada por ateus contemporâneos não corresponde a nenhuma imagem desenvolvida de forma profunda em qualquer tradição espiritual—muito menos a cristã, com a sua insistência no pensamento de Deus em-nós e entre-nós, como encarnação, comunidade, relação, trindade. Se o ateísmo rejeita qualquer ideia de um deus como chefe supremo, a melhor teologia já o fazia há muito tempo. E também nós o devemos fazer, sem pestanejar. A fé nasce da graça, do modo como participamos na vida divina, da vida que abre as portas à realização das potencialidades do ser (“Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”, escreveu Santo Irineu no seu Tratado Contra as Heresias). Não, não acredito “num Deus omnipotente que nos observa, escuta, que assiste ao sofrimento humano sem lhe por fim”. Acredito que Deus não um é ser, muito menos um ser absoluto, de poder ilimitado, mas ipsum esse subsistens, o próprio ser subsistente como articulou Tomás de Aquino ou o alicerce do ser como podemos ler na teologia de Paul Tillich, com o qual nos relacionamos de forma pessoal procurando viver amorosamente.

Sobre a Ressureição

17.11.2017

Nota breve para amizades ateias. A Ressurreição no cristianismo não é a reanimação de um cadáver que produziu uma espécie de morto-vivo. Nunca se transmitiu isso na Igreja. Trata-se, antes, de uma nova criação, da criação de um novo corpo, espiritualmente renovado a partir daquilo que existia. Cristo está vivo connosco. Pelo menos que não acreditem naquilo em que, de facto, quem se diz cristão acredita. Recupero um excerto de um texto do fr. Bento Domingues, OP, de 2004, “Ressurreição e Insurreição”:

Jesus passou a sua existência terrestre—segundo o que dela sabemos—numa insurreição permanente contra tudo o que degrada a vida humana. Essa insurreição era para ele uma questão de obediência à vontade de Deus e dela se alimentava. O Crucificado, o rejeitado por uma coligação de interesses, abriu, a todos, o caminho e o processo da ressurreição. Jesus, ao perdoar aos próprios inimigos, ao entregar nas mãos do Deus vivo aqueles que o entregavam à morte, consumou a sua insurreição contra tudo o que degrada e separa os seres humanos, isto é, o poder do ódio, o poder da morte. A partir daquele momento Jesus Cristo era, é e será para sempre uma vida dada. Que a celebração da Ressurreição de Cristo nos ajude a procurar os bons caminhos para vencer as raízes dos ódios que ensanguentam a terra.

Dominicanos: Arte e Arquitectura Portuguesa

18.03.2018

A exposição estará patente até 10 de Junho, com entrada gratuita das 16h às 19h de quinta-feira a domingo. Estão programadas visitas guiadas à exposição e ao convento, a 28 de Abril, a 26 de Maio, e a 9 de Junho, e uma conferência a 12 de Maio, sempre às 16h, sendo que estas actividades estão sujeitas a inscrição para expoarquiteturadominicanos@gmail.com.

Sair da Noite, Entrar na Aurora

21.02.2018

O Laicado Dominicano de Dezembro 2017/Janeiro 2018 contém um artigo assinado por mim sobre as XIV Jornadas da Família Dominicana. O texto pode ser lido e descarregado aqui.

Knowing God

29.01.2018

Satisfy your demand for reason always but remember that charity is beyond reason, and that God can be known through charity.

—Flannery O’Connor, The Habit of Being

A Condição Comum de Maria

07.01.2018

Subdesenvolvimento extremo o de Nazaré, onde as tarefas eram, de manhã à noite, uma luta incessante pela vida.

Porque Maria não devia somente lavar e remendar os vestidos, mas tecê-los. Não só tecê-los, mas, antes disso, fiar. Devia não só fazer o pão, mas, antes, moer o trigo e, sem dúvida, rachar ela mesma a lenha para as necessidades do lar, como fazem ainda hoje as mulheres de Nazaré. A Mãe de Deus não foi rainha em reinos deste mundo, mas esposa e mãe de operários. Ela não foi rica, mas pobre. Tal devia ser, com efeito, a condição do Homem-Deus que ela teve, por missão única, de gerar e introduzir na história humana. [...] Era preciso primeiro que ela partilhasse com Ele da condição laboriosa e oprimida que foi a da massa dos homens a resgatar, ‘dos que trabalham e estão sobrecarregados’ (Mt 11,28).

—René Laurentin, A Questão Marial

L’affrontement à l’injustifiable

22.11.2017

Poésie, philosophie et théologie naissent de l’affrontement lucide à l’injustifiable qu’aucune action ne saurait définitivement éliminer.

—Christian Duquoc, OP, La Théologie en exil

A Desejada Renovação de Toda a Igreja

17.11.2017

A questão da sexualidade, e por extensão da homossexualidade, é tão importante, tão decisiva, para a discussão sobre a formação de futuros padres que o decreto do Concílio Vaticano II Optatam Totius sobre este tema não a menciona—uma única vez que seja. O Concílio decorreu entre 1962 e 1965. Há mais de meio século, portanto. Talvez não valha a pena dizer muito mais do que isto face às declarações de ontem do Cardeal-Patriarca de Lisboa.

Lutero e o Protestantismo em Portugal

06.11.2017

O Presente Reparado e Ressuscitado

10.10.2017

no livro de Deus
está inscrito o nosso nome
aí dormimos
à espera
que nos acorde
o Consolador

somos a figueira de ramos ternos
que se alegra com o tempo novo que desponta
e somos a figueira de outonos
desolados
invernais
à espera do calor das mãos
do Ungido que nos aqueça

o Verão-no-Inverno está próximo
para quem espera
na brecha do instante
a carícia do consolador
que nos apague as lágrimas
e abençoe o mundo

a vocação do Messias
é de reparar o presente
e o ressuscitar,
não de anunciar uma paz futura
que deixaria
inconsoladas
as dores singulares

estamos à porta e batemos
se Deus está perto
batamos palmas e dancemos

—José Augusto Mourão, OP, “No livro de Deus”